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EUA e América Latina

Uma nova segurança hemisférica?

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, forças estadunidenses realizaram uma operação militar na Venezuela que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Planejada durante meses e precedida por bombardeios em diferentes pontos do país, a ação foi justificada pelo governo dos Estados Unidos com base no indiciamento de ambos pela Justiça de Nova York. Segundo as autoridades norte-americanas, Maduro é acusado de conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos e conspiração para utilização desses armamentos contra os Estados Unidos (Gavras et al. 2026).

Ainda que a história da América Latina seja marcada por episódios recorrentes de interferência estadunidense, incluindo intervenções militares na América Central e no Caribe, a operação na Venezuela inaugura uma situação sem precedentes: trata-se do primeiro ataque militar direto dos Estados Unidos contra um país da América do Sul. O contexto também difere de intervenções anteriores. A ação ocorreu em um momento de forte desgaste doméstico da política intervencionista da potência norte-americana, ainda marcada pelo fracasso no Afeganistão e pelo legado da Guerra do Iraque (Winter 2026).

A significância da operação tornou-se mais evidente a partir do discurso que a sucedeu. Em pronunciamento após a captura de Maduro, Donald Trump reiterou a associação entre o governo venezuelano, o narcotráfico e as "gangues assassinas" que, segundo ele, ameaçam comunidades nos Estados Unidos, afirmando, ainda, que "a dominância americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada" (Trump 2026). Na mesma ocasião, vinculou explicitamente os interesses norte-americanos na Venezuela à exploração, produção e escoamento de petróleo, evidenciando que a intervenção se inseria em uma agenda mais ampla de afirmação do poder e de proteção de interesses estratégicos dos Estados Unidos na região.

Curiosamente, entre 1902 e 1903, os Estados Unidos atuaram para conter uma ação militar realizada pelo Reino Unido, pela Alemanha e pela Itália – em resposta ao não pagamento de uma dívida da Venezuela – e, assim, encerrar o bloqueio naval imposto ao país. Esse episódio contribuiria posteriormente para a formulação do Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe e para a consolidação da pretensão estadunidense de exercer um papel de “polícia internacional” no hemisfério.

Sob essa perspectiva, a intervenção na Venezuela pode ser interpretada como a expressão mais contundente do Corolário Trump, uma reformulação contemporânea da Doutrina Monroe que orienta a atual Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos. Enquanto a Doutrina Monroe consolidou-se em torno da exclusão de potências extrarregionais e da preservação da esfera de influência norte-americana no continente (Bethell 2025), o Corolário Trump reconfigura essa tradição para responder às disputas geopolíticas do século XXI, em especial frente à ascensão econômica da China. 

 A isso, somam-se temas como imigração e crime organizado, historicamente situados fora da esfera militar, mas agora incorporados à agenda de segurança nacional. Essa convergência amplia a militarização de questões anteriormente tratadas por meio de mecanismos diplomáticos e de cooperação, mantendo, assim, a reivindicação de primazia dos Estados Unidos na região, mas redefinindo as prioridades e os mecanismos por meio dos quais ela é exercida (Ernst 2025). Sob essa perspectiva, o Corolário Trump sugere uma passagem de uma lógica hegemônica – ainda que profundamente assimétrica – para uma lógica de dominação, recolocando o uso da força como elemento estruturante das relações interamericanas e reabrindo o debate sobre os fundamentos da segurança hemisférica (Tokatlian 2025).

Como demonstra Milani (2018), a arquitetura de segurança hemisférica nas Américas passou por uma profunda transformação após o fim da Guerra Fria. Sob a liderança dos Estados Unidos, a agenda regional foi progressivamente reformulada por meio da Organização dos Estados Americanos (OEA), ampliando seu escopo para incorporar ameaças como o terrorismo, o narcotráfico, o crime organizado transnacional, os desastres naturais e, posteriormente, a cibersegurança. A Declaração sobre Segurança nas Américas, de 2003, consolidou essa concepção multidimensional, deslocando o debate da defesa estritamente militar para questões de governança, desenvolvimento, cooperação e proteção das populações.

Essa redefinição da agenda, entretanto, foi acompanhada por disputas sobre sua condução política e institucional. Ao longo dos anos 2000, países sul-americanos – com destaque para o Brasil – buscaram fortalecer mecanismos próprios de concertação e cooperação em defesa, culminando na criação do Conselho de Defesa Sul-Americano, no âmbito da UNASUL. Essas iniciativas não pretendiam substituir a arquitetura hemisférica existente, mas ampliar a autonomia regional, diferenciar defesa de segurança interna e equilibrar a influência norte-americana na definição das prioridades de segurança (Milani 2018). A consolidação do Corolário Trump tensiona esse percurso histórico, ao reafirmar unilateralmente a centralidade dos Estados Unidos na definição das ameaças, das prioridades e dos instrumentos da segurança hemisférica, colocando, assim, em disputa os fundamentos sobre os quais a arquitetura regional de segurança foi construída nas últimas décadas.

Nesse contexto, é importante ressaltar que o que está em disputa não é apenas a configuração de forças sobre quem determina os parâmetros da segurança hemisférica, mas a própria natureza da segurança almejada. Na América Latina, essa disputa é significativa, haja vista as diferentes reações frente à captura de Maduro, onde alguns governantes condenaram veementemente o ato (como o presidente Lula no Brasil e Gustavo Petro na Colômbia), enquanto outros celebraram o suposto fim da ditadura venezuelana (como Javier Milei na Argentina e Daniel Noboa no Equador). 

Coloca-se, assim, uma questão importante: como redefinir os contornos da segurança hemisférica em um ambiente internacional em transformação e extremamente polarizado? As próximas eleições latino-americanas, a crescente competição entre Estados Unidos e China e a fragilização de mecanismos tradicionais de concertação regional tornam esse debate ainda mais relevante e tornam ainda mais desafiador pensar em mecanismos efetivos para uma nova configuração de segurança hemisférica, especialmente com base em mecanismos de cooperação. 

As reflexões reunidas nesta edição da CEBRI-Revista dialogam precisamente com esses dilemas. Os artigos exploram, sob diferentes perspectivas, as transformações em curso na ordem hemisférica, examinando desde a construção histórica da ideia de América Latina e os desafios de definir os contornos políticos e estratégicos da região até as tensões entre autonomia, influência externa e novas formas de competição geopolítica. A edição também aborda como a ampliação do conceito de segurança – que hoje incorpora dimensões como cibersegurança, crime organizado, disputas por recursos estratégicos e vulnerabilidades institucionais – convive com o retorno de práticas de coerção, intervenção e afirmação de zonas de influência.

Em conjunto, as contribuições revelam que a discussão sobre uma nova segurança hemisférica não se limita à identificação das ameaças, mas envolve uma disputa mais ampla sobre quem define essas ameaças, quais instrumentos são considerados legítimos para enfrentá-las e quais formas de governança regional podem responder aos desafios de um mundo mais fragmentado e competitivo. Ao examinar as transformações no papel dos Estados Unidos, os efeitos da intervenção na Venezuela, as estratégias de outros atores globais e as possibilidades de cooperação em um contexto multipolar, esta edição convida a refletir sobre os caminhos possíveis para uma nova configuração da segurança hemisférica na região.

Esta edição também inaugura uma nova etapa da CEBRI-Revista. Paralelamente à Seção Especial, promovemos uma reformulação de nossa estrutura editorial. As seções Artigos Acadêmicos e Policy Papers passam a ser reunidas em uma única seção, Policy Analysis, preservando essa denominação também na versão em português. A mudança institucionaliza uma característica que já marca as publicações da revista: textos que combinam rigor analítico, diálogo com a literatura especializada e reflexão voltada aos desafios da política internacional. Esperamos, com isso, fortalecer um espaço de debate capaz de aproximar pesquisa, formulação de políticas e análise das transformações que moldam a agenda internacional contemporânea.

Boa leitura!

Referências Bibliográficas

Bethell, Leslie. 2025. “A Doutrina Monroe nas relações entre os EUA e a América Latina”. CEBRI-Revista Ano 4, Número 16 (Out-Dez): 63-80. https://cebri.org/revista/br/artigo/241/a-doutrina-monroe-nas-relacoes-entre-os-eua-e-a-america-latina.

Ernst, Mariano Aguirre. 2025. “Trump Corollary: US Security Strategy Brings New Focus to Latin America – It Is a Disordered Plan.” Chatham House, 18 de dezembro de 2025. Atualizado em 13 de janeiro de 2026. https://www.chathamhouse.org/2025/12/trump-corollary-us-security-strategy-brings-new-focus-latin-america-it-disordered-plan.

Gavras, Douglas, Ítalo Leite, Marília Miragaia, Gabriel Barnabé & Victor Lacombe. 2026. “EUA Atacam a Venezuela e Capturam Nicolás Maduro, que Será Julgado em Nova York.” Folha de S.Paulo, 3 de janeiro de 2026. https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/01/venezuela-acusa-eua-de-realizarem-ataques-militares-em-caracas-e-outras-partes-do-pais.shtml.

Milani, Lívia Peres. 2019. “Segurança Hemisférica: Reformulações e Desencontros no Pós-Guerra Fria.” Mural Internacional 9 (1): 39–53. https://doi.org/10.12957/rmi.2018.33612.

Tokatlian, Juan Gabriel. 2025. “Estados Unidos – América Latina y el Caribe: de la Hegemonía a la Dominación.” Cenital, 23 de novembro de 2025. https://cenital.com/estados-unidos-america-latina-y-el-caribe-de-la-hegemonia-a-la-dominacion/.

Trump, Donald. 2026. “Transcript: President Trump Discusses the Capture of Nicolás Maduro in Venezuela.” U.S. Senate Democrats, 3 de janeiro de 2026. https://www.democrats.senate.gov/newsroom/trump-transcripts/transcript-president-trump-discusses-the-capture-of-nicolas-maduro-in-venezuela-10326.

Winter, Brian. 2026. “What History Tells Us About Trump's Big Stick.” Americas Quarterly, 5 de janeiro de 2026. https://americasquarterly.org/article/what-history-tells-us-about-trumps-big-stick/.

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