
Nesta quarta-feira (4/2), o CEBRI reuniu especialistas para discutir as tendências recentes no processo de tomada de decisão em Washington, as prioridades da política externa dos Estados Unidos para a América Latina e suas possíveis implicações para o Brasil.
O evento contou com a participação do Embaixador Rubens Ricupero, Conselheiro Emérito do CEBRI; Brian Winter, Editor-Chefe da Americas Quarterly e Vice-Presidente do Americas Society/Council of the Americas (AS/COA); e Hussein Kalout, Conselheiro Consultivo e Internacional do CEBRI e Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2016–2018), e moderação de Leila Sterenberg, Senior Fellow do CEBRI e Jornalista.

Durante o debate, Brian Winter destacou que a política externa dos Estados Unidos, especialmente sob o governo Trump, é fortemente moldada por fatores domésticos. Segundo ele, a eleição de Trump em 2024 esteve associada sobretudo a três temas centrais: inflação, imigração irregular e a crise das drogas e das mortes por overdose — áreas nas quais a América Latina é percebida como estratégica. Especialmente em relação à imigração e à segurança, a região ocupa papel central na agenda de Washington. “Making America great again requires a focus on Latin America”, afirmou.
Embora a rivalidade com a China e a busca por recursos naturais estratégicos façam parte desse contexto, Brian Winter e Hussein Kalout enfatizaram que o principal motor dessa agenda permanece sendo de natureza interna.
Essa lógica se reflete na National Security Strategy dos Estados Unidos, que aponta para a necessidade de recalibrar a presença militar global do país, conferindo maior prioridade ao hemisfério ocidental. Winter observou que essa reorientação já tem produzido efeitos concretos, como uma postura mais assertiva em relação à Venezuela.
Para o Embaixador Rubens Ricupero, um elemento distingue o cenário atual de períodos anteriores: a presença crescente e estrutural da China na América Latina. Diferentemente da antiga União Soviética, cuja atuação econômica na região foi limitada, a China consolidou-se como principal parceiro comercial de diversos países latino-americanos, incluindo o Brasil.
Esse fator impõe limites objetivos à capacidade de ação dos Estados Unidos na região, destacou. Enquanto a China se apresenta como um mercado amplo e consistente para commodities latino-americanas, os Estados Unidos tendem a atuar mais como competidores.
Durante o debate, também foi mencionada a possibilidade de tentativas de influência externa em processos eleitorais na região, inclusive no Brasil. No entanto, de acordo com Ricupero, o alcance desse tipo de intervenção tende a ser limitado, uma vez que o país demonstra, atualmente, maior capacidade de resistência a pressões políticas diretas.
Por fim, Hussein Kalout acrescentou que esse cenário pode levar o Brasil a repensar sua visão de segurança nacional, especialmente no contexto latino-americano e na sua relação estratégica com os Estados Unidos.
