Copied!

Academic Articles PT

The Fractured Geoeconomy of South America

Joint International Presence Remains Unsuccessful

Abstract

Geoeconomics is the use of the “logic of conflict” to international economic relations, with states strengthening their power via desired positions in the world economy. This article argues that, from the viewpoint of geoeconomics, the South American option for joining efforts via regional integration has not been successful so far in fostering the presence of these economies in the international scenario, which could have contributed to stimulate their competitiveness and strengthen their negotiating capacity.

Keywords

geoeconomics; regional integration; economic potential.
Image: Shutterstock

A história está repleta de exemplos em que o interesse pela expansão do poder foi perseguido e alcançado pela força. A opção pela conquista por meios militares implica custos econômicos de curto e médio prazo, e a margem de sucesso nem sempre é garantida. É possível, no entanto, que alguns países obtenham resultados comparáveis por meio de instrumentos econômicos e jurídicos, sem ter de recorrer a soluções militares. 

Tais estratégias tornaram-se mais frequentes graças à redução dos custos de comunicação, ao processamento e transmissão de dados, bem como à presença de empresas com capital investido em outros países. Elas são mais sutis, menos explícitas e, eventualmente, menos onerosas em termos econômicos e políticos do que o uso da força. Esse é o fundamento básico do que se denomina geoeconomia: a “lógica do conflito” aplicada às relações econômicas internacionais.

O uso desses instrumentos é uma prerrogativa dos países dominantes, que concentram uma parcela expressiva das transações econômicas e exercem influência direta sobre a configuração da economia global e o funcionamento e a agenda de organizações multilaterais. Outras nações são atores passivos e acabam afetadas pela ação dos Estados dominantes por meio de políticas comerciais seletivas, padrões produtivos específicos, controles de matérias-primas e componentes ou, ainda, condições vinculadas à assistência técnica. 

O cenário das transações globais – no comércio, no investimento direto, nos fluxos financeiros ou nas barreiras à migração – apresenta um grau elevado de potencial conflitivo. Para economias com menor poder no cenário internacional, uma alternativa à adesão plena e pacífica aos interesses das potências é buscar complementaridade com países vizinhos, de modo a melhorar tanto sua competitividade quanto sua capacidade de negociação.

A integração regional poderia fornecer essa capacidade. A experiência dos países latino-americanos nas últimas oito décadas é limitada em termos de esforços conjuntos para ampliar sua presença internacional. Uma das principais deficiências desses processos é que eles têm se limitado, em grande medida, a facilitar o acesso aos mercados intrarregionais, sem avançar para mecanismos mais amplos de integração produtiva ou coordenação estratégica de políticas macroeconômicas e posicionamentos em foros globais. Além disso, as iniciativas para o aprimoramento do comércio e do investimento na região têm sido marcadas pela descontinuidade.

O presente artigo argumenta que a opção sul-americana por unir esforços via exercícios de integração não tem sido bem-sucedida para viabilizar a presença conjunta dessas economias no cenário internacional. Como resultado, deixam de ser plenamente exploradas oportunidades de estímulo à competitividade e de fortalecimento da capacidade negociadora, o que contribuiria para consolidar sua posição diante de desafios de ordem geoeconômica.

Assim, após esta introdução, a próxima seção apresenta brevemente o debate sobre a conceituação de geoeconomia. A seção seguinte mostra os arranjos sub-regionais adotados pelos países sul-americanos. A terceira seção traz alguns dos mais relevantes indicadores da ainda limitada inserção da região no cenário internacional. Em seguida, são mostradas indicações do potencial das economias sul-americanas no contexto da transição energética, enfatizando as diversas oportunidades que poderiam ser aproveitadas de maneira mais sistematizada e eficiente. A última seção, por sua vez, apresenta as considerações finais do trabalho. 

GEOECONOMIA – DIFICULDADE DE CONCEITUAÇÃO 

A análise das relações entre países por muito tempo enfatizou os aspectos físicos que delimitam o território nacional em cada país como determinantes de sua política externa. A expansão geográfica era o elemento determinante da relação de poder, como evidenciado no relacionamento metrópole/colônia ou na ênfase em domínio administrativo sobre a maior extensão geográfica possível. Esse formato de relacionamento frequentemente levava à adoção de políticas mercantilistas no comércio internacional. 

Ao tipo de análise orientado sob essa perspectiva convencionou-se chamar de geopolítica. Ele associa características geográficas ao poder em nível internacional. Exemplo histórico típico foi a disputa entre países europeus ocidentais para criar impérios nos diversos continentes e com isso adquirir poder no concerto das nações. 

Com a crescente movimentação internacional de fatores de produção nas últimas décadas, viabilizada pelas alterações no processo de globalização produtiva e financeira, e dadas as facilidades de comunicação, essa racionalidade perde boa parte do seu significado. Isso não implica que a ênfase mercantilista tenha desaparecido. Ela apenas passou a ser mais dissimulada.

O novo cenário, em que boa parte das disputas entre países se dá não mais através de conflitos militares, mas através de medidas de cunho econômico, tem demandado novos métodos de diagnóstico e de critérios de análise. A racionalidade da geopolítica evoluiu para o que se chama de geoeconomia. A ênfase na dimensão geográfica é substituída pelo reconhecimento do peso das intervenções possíveis via mecanismos de mercado. A geoeconomia é um desdobramento da geopolítica, mas não é clara sua definição ou conceitualização precisa.

Na proposta de Luttwak, responsável pela popularização do conceito (Moraes 2024), a geoeconomia é a aplicação da “lógica de conflito” às relações econômicas internacionais. Os Estados agem como sempre fizeram, mas agora no âmbito econômico, procurando fortalecer seu poder através do desenvolvimento de capacidades que possibilitem a conquista de posições desejadas na economia mundial. 

Wigell et al. (2022) definem geoeconomia como a busca de poder político usando meios econômicos. Clayton, Maggiori e Schreger (2024), por sua vez, consideram que geoeconomia é o nome que se dá ao uso que os países hegemônicos fazem de seu poder econômico e financeiro para extrair excedentes econômicos e políticos de outros países.

Para Baracuhy (2015), a geoeconomia é um tipo especial de competição geopolítica, e pressupõe efeitos simultâneos em duas dimensões: o uso do poder econômico para o aumento da influência geopolítica; e o uso do poder geopolítico para fins de influência econômica. Mais recentemente tem sido enfatizado o poder de alguns países gerarem tecnologia em ritmo e proporções diferenciados, o que constitui fonte adicional de vantagem competitiva, constituindo um elemento adicional em termos geoeconômicos (Baru 2012). 

Segundo Mattlin (2016), há três tipos de enfoque para a geoeconomia. Um primeiro a discute como uma forma de governar, sob uma ótica econômica, financeira, energética ou outra. Um segundo enfoque enfatiza o espaço geográfico, enfatizando as complementaridades econômicas entre mercados vizinhos. Esta é a perspectiva adotada no presente texto. Outro enfoque enfatiza a dimensão social e política, destacando de que modo os fluxos econômicos globais influenciam as formas sociais e de cidadania, como, por exemplo, no tratamento dos direitos humanos. 

A intensificação de iniciativas afirmativas de poder tem tido como contrapartida um aumento na adoção de medidas “defensivas por antecipação” (“hedge”, na expressão inglesa) por parte das principais economias. Exemplos relevantes são mecanismos de monitoramento de investimentos externos, sanções econômicas, controles de exportações e de importações, adoção de políticas industriais, inclusão da dimensão de segurança em acordos comerciais e de investimento, entre outras. O cenário vai se consolidando gradualmente como um distanciamento entre as principais economias, dando margem a crescente polarização econômica e política.

Como ressalta Austvik (2018), dado que nesse novo cenário há interação das autoridades nacionais, das influências internacionais e do setor empresarial, o Estado não é mais o único ator a determinar os resultados. O peso geopolítico de um país é influenciado pela escala e amplitude de sua dependência em relação ao empresariado (nacional e internacional) e a outros países.

Independentemente das características de uma ação que reflita busca de poder econômico, a competição de tipo geoeconômico compreende objetivos de longo prazo, mesmo que isso implique perdas no curto prazo. A probabilidade de sucesso é tanto maior quanto mais forte for a economia do país ativo. Há uma correlação direta entre o potencial de benefício a longo prazo, de um lado, e a disponibilidade de recursos e a atratividade do mercado interno, de outro, de sorte que as economias mais exitosas em termos geoeconômicos tendem a valer-se de mecanismos de pressão sobre a movimentação de recursos e/ou barreiras à entrada no mercado interno.

Há, portanto, um grau de determinismo nas medidas adotadas pelos participantes de maior peso no cenário econômico e político internacional, produzindo repercussões sobre as demais economias. Essa combinação entre instrumentos comerciais ou financeiros e objetivos de poder ilustra a dificuldade de conceituação precisa da geoeconomia, traduzida na diversidade de enfoques presentes na literatura. Nesse contexto, cabe às nações com menor capacidade de influência – como as sul-americanas - buscar mecanismos para melhorar sua inserção externa, sendo uma possibilidade notável os arranjos de integração regional.

OS ARRANJOS DE INTEGRAÇÃO SUL-AMERICANOS

A integração regional na América Latina começou em 1960, com a criação do Mercado Comum Centro-Americano (MCCA), reunindo Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua. Em nível mais amplo, teve pioneirismo a Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC), com o objetivo de constituir uma zona de livre comércio continental no prazo de doze anos. 

As metas de liberalização comercial da ALALC não foram alcançadas, e o processo entrou em estagnação. Isso ocorreu, principalmente, devido às assimetrias nas estruturas produtivas e ao processo decisório que exigia unanimidade (Torres 2006; Vieira 2016). O fato de a maioria dos países estar, à época, sob governos militares, também contribuiu para a resistência em negociar reduções de barreiras comerciais.

Outros blocos regionais menores surgiram até o início da década de 1970. O Pacto Andino foi criado em 1969, originalmente subscrito por Peru, Bolívia e Equador e ao qual a Venezuela aderiu quatro anos depois. A Associação Caribenha de Livre Comércio (CARIFTA) foi criada em 1968, sendo logo (1973) substituída pela Comunidade do Caribe (CARICOM). Tanto o Pacto Andino quanto a CARICOM apresentavam pretensões ainda mais ambiciosas que a ALALC, enfatizando não apenas a liberalização comercial, mas também a harmonização de políticas sociais e econômicas e a cooperação política, com forte aparato institucional.

A integração latino-americana perdeu fôlego entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, quando todo o continente foi afetado pelas crises dos preços do petróleo, a elevação da dívida externa e a alta das taxas de juros internacionais (Haffner 2002). Uma tentativa de reviver a integração em nível continental ocorreu em 1980, quando a ALALC foi substituída pela Associação Latino-Americana de Integração (ALADI), mantendo o objetivo de constituir um mercado comum regional, com maior flexibilidade no processo decisório.

A ALADI adotou abordagem mais pragmática que sua antecessora, enfatizando acordos bilaterais ou sub-regionais que pudessem ser sobrepostos e conduzissem à formação de uma zona de livre comércio mais ampla. Outro destaque foi a diferenciação dos membros por níveis de desenvolvimento econômico, com tratamento preferencial aos países menos industrializados (Vieira 2016).

O panorama geoeconômico começou a mudar entre meados da década de 1980 e início da de 1990, quando as economias avançadas adotaram políticas de liberalização do comércio e dos fluxos de capital. Na América Latina, a CEPAL (1994) passou a defender um “regionalismo aberto”: os acordos regionais e a abertura comercial multilateral deveriam ocorrer de forma concomitante. 

Essa foi a lógica subjacente à gênese do Mercosul. Inicialmente, em 1986, Brasil e Argentina assinaram o Programa de Integração e Cooperação Econômica (PICE). O novo contexto após 1989 permitiu uma liberalização comercial mais ampla, e o mecanismo original, calcado em protocolos específicos, foi substituído pela proposta de um mercado comum, com a adesão do Paraguai e do Uruguai. Em 1994, o objetivo original de formar um mercado comum foi reduzido a uma união aduaneira parcial.

O bloco regional adotou uma tarifa externa comum e, após 1995, novos acordos foram firmados nas áreas de serviços e política concorrencial, reforçando o espírito de “regionalismo aberto”. Entre as décadas de 1990 e 2000, o Mercosul ampliou sua agenda para além da integração econômica, incorporando iniciativas nas esferas política e social (Zardo 2019). O bloco também expandiu sua membresia, aprovando a adesão da Venezuela (2012) e da Bolívia (2024).

O Pacto Andino igualmente passou por mudanças importantes. O bloco chegou a anunciar a intenção de formar uma união aduaneira (1995), com a adoção de uma tarifa externa comum, nunca plenamente implementada. Em 1996, o grupo passou a chamar-se Comunidade Andina. 

Uma tentativa de melhorar a coesão entre esses blocos e de avançar uma agenda de integração mais ampla foi esboçada em 2000, com uma reunião, em Brasília, dos doze chefes de Estado sul-americanos. A principal decisão foi a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), um portfólio de projetos de infraestrutura destinados a impulsionar o comércio e a conectividade regionais (Padula 2014).

O quadro da integração regional foi alterado nos anos seguintes com a chamada “Onda Rosa” (Pink Tide), em que vários países sul-americanos passaram a ser governados por partidos de esquerda, com o objetivo comum de aprofundar a integração continental. Em vez de focar apenas no comércio e na abertura de mercados, os governos da Onda Rosa enfatizaram a redução das assimetrias regionais e a harmonização das políticas sociais (Zardo 2019).

Um ramo mais radical dessa tendência levou à criação da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA), em 2004. Inicialmente formada por Venezuela e Cuba, foi posteriormente ampliada para incluir Bolívia, Nicarágua, Honduras, Equador e vários países caribenhos. Um traço distintivo da ALBA era a defesa da região como um espaço soberano, autônomo e pós-colonial, tecendo fortes críticas à presença de potências ocidentais.

A ambição de uma estrutura institucional mais ampla que reunisse todo o subcontinente levou à criação, em 2004, da Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA). No entanto, a CASA carecia de personalidade jurídica até sua conversão na União de Nações Sul-Americanas (Unasul), em 2008, à qual todos os países da América do Sul aderiram. Em 2009, seu Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (Cosiplan) passou a incorporar a IIRSA, atualizando seu portfólio e coordenando sua governança (Barros, 2023).

Paralelamente a esse enfoque mais holístico promovido pela Unasul, Mercosul e Comunidade Andina, Chile, Peru e Colômbia continuaram a priorizar a dimensão estritamente econômica da integração. Em 2011, com a adesão do México, criaram a Aliança do Pacífico, que, embora desprovida de ambições nos âmbitos político e social, buscava eliminar as tarifas comerciais entre os membros até 2020 (Padula 2013).

Em síntese, podem ser identificadas três correntes de pensamento que se destacaram no debate sobre a integração sul-americana entre as décadas de 2000 e 2020:

(a) a esquerda bolivariana, voltada ao combate ao imperialismo e à dominação de potências estrangeiras;

(b) um centro moderado, que busca institucionalizar as diferentes dimensões da integração – econômica, social e política; e

(c) a visão centrada em aspectos estritamente econômicos e na ampliação dos fluxos comerciais internos e externos.

Com o esgotamento da Onda Rosa, a polarização política aumentou na região. Em 2016 a Unasul entrou em paralisia, tornando-se praticamente inoperante. Em 2019, surgiu um mecanismo paralelo, o Fórum para o Progresso e Integração da América do Sul (Prosul), substituto da Unasul, com estrutura mais flexível e menos institucionalizada. Venezuela, Bolívia, Guiana e Suriname, ainda governados por partidos de esquerda, permaneceram na Unasul.

Mudanças políticas internas levaram Brasil e Argentina a reingressar na Unasul, mas sem consenso quanto à reativação de suas instituições. O governo brasileiro tentou reaproximar a região numa reunião de cúpula em Brasília, em 2023. Os doze chefes de Estado assinaram o “Consenso de Brasília”, reconhecendo a importância de lograr novos avanços na integração regional. 

Apesar da criação de grupos temáticos de trabalho e da publicação de um “Mapa do Caminho para a Integração Sul-Americana”, a polarização política impediu avanços, e as iniciativas de integração continuam amplamente fragmentadas. Essa fragmentação política entre os países sul-americanos invariavelmente conduz a diferenças significativas em suas abordagens geoeconômicas. 

A ABORDAGEM SUL-AMERICANA EM RELAÇÃO AO SETOR EXTERNO

A América do Sul continua periférica no comércio mundial, com seu potencial ainda subaproveitado. Embora a região responda por cerca de 5% do PIB global, ela representa apenas 3% das exportações e importações totais (UN/Comtrade 2025). Enquanto o comércio internacional de mercadorias equivale a 45% do PIB mundial, a maioria dos países sul-americanos está bem abaixo dessa média (Tabela 1).

Tabela 1 – Participação (%) do Comércio de Mercadorias no Produto Interno Bruto (PIB).

Tabela 1 – Participação (%) do Comércio de Mercadorias no Produto Interno Bruto (PIB). Fonte: World Bank (2025), Development Indicators, consulta em 19 de março de 2026. *A Bolívia só se tornou membro pleno do Mercosul em meados de 2024. **Aliança do Pacífico: Apenas estão elencados os membros sul-americanos do bloco, excluindo-se o México.

Parte desse desempenho comercial limitado decorre da fragmentação dos blocos regionais, que permanecem incompletos. A tentativa da ALADI de formar uma zona de livre comércio continental não prosperou; a tarifa externa comum do Mercosul segue enfraquecida por longas listas de exceções; e a união aduaneira da Comunidade Andina nunca foi implementada de fato.

Enquanto o comércio intrarregional na Ásia Oriental, na Europa Ocidental e na América do Norte representa entre 30% e 60% do comércio total, na América do Sul o intercâmbio entre vizinhos permanece baixo (Tabela 2).

Tabela 2 – Participação (%) do Comércio Intrabloco no Comércio Total (2024).

Tabela 2 – Participação (%) do Comércio Intrabloco no Comércio Total (2024). Fonte: WITS (2025) Database, consulta em 20 de março de 2026.

No comércio extrarregional, o desempenho da América do Sul também é modesto, refletido na baixa participação da região nos fluxos globais. Um dos fatores explicativos é a persistência na adoção de políticas protecionistas, que dificultam o acesso a insumos e eventualmente provocam medidas retaliatórias de parte de alguns parceiros comerciais. Para uma medida aproximada, pode-se observar a tarifa média ponderada aplicada a todos os produtos, conforme a Tabela 3. Apesar da queda das tarifas médias nas últimas duas décadas, na maior parte dos países as alíquotas permanecem acima da média global.[1]

Tabela 3 – Tarifa Média Ponderada (todos os produtos, %).

Tabela 3 – Tarifa Média Ponderada (todos os produtos, %). Fonte: World Bank (2025), Development Indicators, consulta em 29 de agosto de 2025.

Além disso, a região tem sido marcada por inércia nas políticas comerciais. Com a notável exceção da Aliança do Pacífico, poucos acordos de livre comércio (ALCs) foram celebrados com parceiros relevantes. No caso do Mercosul, além dos recentes acordos com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), Singapura e a União Europeia, há tratados de liberalização comercial mais amplos apenas com Egito, Israel e Palestina.

O desempenho comercial da região também é prejudicado por entraves estruturais à competitividade. Em particular, destacam-se as deficiências de infraestrutura e as grandes distâncias em relação aos principais centros dinâmicos da economia global, que elevam os custos de transporte e logística. 

O continente possui, como características peculiares, o fato de que a população é predominantemente urbana, e a renda altamente concentrada: os 10% mais ricos detêm entre 30% e 40% da renda total em todos os países. Essa concentração pressiona as políticas públicas, pois os governos precisam destinar grandes recursos à mitigação das desigualdades, reduzindo sua capacidade de investir em infraestrutura. 

Tabela 4 – População Urbana e Desigualdade (2024).

Tabela 4 – População Urbana e Desigualdade (2024). Fonte: World Bank (2025), Development Indicators, consulta em 19 de março de 2026. *Os dados referentes à Bolívia e à Colômbia se referem a 2023; os dados de Chile e Suriname são de 2022. ** A Bolívia só se tornou membro pleno do Mercosul em meados de 2024.

Outros fatores institucionais e regulatórios também reduzem a atratividade da região. Um bom indicador é o ranking de facilidade para fazer negócios do Banco Mundial (2020): os países sul-americanos melhor posicionados são Chile (59º), Colômbia (67º) e Peru (76º), enquanto todos os demais estavam abaixo da 100ª posição. 

Apesar desses obstáculos, o continente possui vasto estoque de recursos naturais. Trata-se de ativo central no atual contexto de transição energética, o que favorece seu potencial de inserção internacional.

A AMÉRICA DO SUL NO CONTEXTO DA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

O acesso a determinados minerais é estratégico para a transformação tecnológica e energética em curso. Os chamados minerais críticos são cruciais para a produção de baterias e ímãs permanentes – indispensáveis a motores e veículos elétricos, painéis solares e turbinas eólicas. É o caso do lítio, níquel, cobalto, manganês, grafite, cobre, nióbio, silício, estanho, além das terras raras. Muitos desses minérios também são amplamente utilizados nas indústrias de satélites e de defesa, o que aumenta sua importância econômica e política.

Argentina e Bolívia detêm os maiores depósitos de lítio do mundo, respondendo juntas por cerca de 40% do total identificado. O Chile possui cerca de 10% dos recursos globais e é o segundo maior produtor, sendo responsável por mais de 20% do volume extraído. Brasil e Peru detêm aproximadamente 1% dos depósitos globais (USGS 2025).

A América do Sul também se destaca nas reservas de cobre, principalmente no Chile e Peru. O Chile é o país com as maiores reservas no mundo (19%), enquanto o Peru tem cerca de 10%. De igual modo, o Chile é o principal produtor mundial (23%), e o Peru o terceiro (11%) (USGS 2025).

O Brasil é o único país sul-americano a figurar entre os dez maiores produtores e detentores de reservas de manganês, com 16% das reservas globais, embora responda por apenas 3% da produção. No caso do níquel, o país possui 12% das reservas globais, mas apenas 2% da produção. No silício, o Brasil ocupa o segundo lugar em reservas e o terceiro em produção, com 4% em ambos os casos.

Em relação ao grafite, o Brasil possui 26% das reservas mundiais (2º lugar), mas apenas 4% da extração. No setor das terras raras, o Brasil é o segundo maior detentor de reservas (23%), atrás apenas da China, porém sua produção é quase nula (USGS 2025). No caso do estanho, o Brasil responde por 10% das reservas e 6% da produção global (USGS 2025). O mercado de nióbio, por sua vez, é virtualmente monopolizado pelo Brasil, com mais de 90% das reservas e da produção mundial (USGS 2025).

Em suma, as vastas reservas sul-americanas constituem um ativo geoeconômico fundamental, podendo alavancar investimentos estrangeiros e reforçar o poder de barganha política e econômica da América do Sul. Um exemplo claro desse potencial são os volumosos fluxos de capital externo para o setor mineral registrados nas últimas duas décadas. Segundo a CEPAL (2025b), entre 2005 e 2024, foram investidos mais de 230 bilhões de dólares na mineração da América Latina e Caribe, com 84% concentrados no Chile, Brasil, Peru e Argentina. Desse total, 42% foram destinados ao setor de minerais críticos, que recebeu 6,5 bilhões de dólares em 2024 e 10 bilhões em 2023, sobretudo em lítio e cobre (CEPAL 2025a).

A América do Sul abriga, ademais, três das maiores reservas de água doce do planeta, a Bacia Amazônica e os aquíferos de Alter do Chão e Guarani. Em tempos de crise hídrica global, isso representa uma vantagem comparativa central. A disponibilidade de água em larga escala torna a região mais atrativa para atividades produtivas intensivas nesse recurso – como a operação de data centers -, além de reforçar seu peso estratégico nas negociações internacionais ligadas ao desenvolvimento sustentável e à segurança hídrica.

Ademais, uma transição verde eficaz depende de eletricidade limpa, o que demanda matriz energética baseada em fontes renováveis. A disponibilidade de energia renovável abundante e barata faz da América do Sul um destino privilegiado para investimentos em desenvolvimento sustentável. Detendo mais de 20% da água doce mundial, o continente tem grande potencial de energia hidroelétrica com baixo custo. Além disso, as altas temperaturas médias favorecem a geração de energia solar, enquanto os ventos ao longo do Atlântico e da Patagônia permitem o avanço da energia eólica. As vastas terras cultiváveis viabilizam a produção de energia a partir da biomassa.

A América do Sul também oferece oportunidades no setor de combustíveis fósseis. A Venezuela possui as maiores reservas conhecidas de petróleo, mas destacam-se as descobertas na camada pré-sal da costa brasileira e na Margem Equatorial, que se estende da Guiana ao extremo norte do Brasil. A Argentina dispõe da reserva de Vaca Muerta, o segundo maior campo de gás de xisto do mundo.

Em síntese, o subcontinente combina recursos minerais estratégicos e fontes renováveis abundantes, posicionando-se como ator-chave na transição energética global, com grandes oportunidades de investimento. A região se candidata a elo central entre as necessidades globais de curto prazo e a transição para um modelo de desenvolvimento mais sustentável. Esse potencial de vantagens comparativas em recursos naturais deveria, em princípio, traduzir-se em melhor desempenho na inserção internacional das economias da região.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A geoeconomia constitui um referencial teórico útil para compreender por que a América do Sul, apesar de suas vantagens comparativas e vastas dotações de recursos naturais estratégicos, segue ocupando posição periférica na ordem econômica mundial. Uma breve análise das últimas duas décadas e meia indica que a região não tem logrado traduzir suas potencialidades em poder de barganha efetivo ou em maior projeção internacional. Isso decorre sobretudo de um quadro de fragmentação interna que impede a emergência de uma estratégia coesa e unificada de atuação nos foros multilaterais.

O diagnóstico apresentado aqui é de que a integração regional, embora acertadamente evocada como resposta à distribuição heterogênea do poder econômico internacional, não tem fortalecido a posição relativa dos países sul-americanos. A retórica não se traduz em efeitos práticos devido a problemas de implementação, haja vista a descontinuidade, a baixa coordenação macroeconômica e o reduzido grau de institucionalização que caracterizam as iniciativas existentes. Prevalece uma lógica centrada na facilitação do comércio intrarregional, sem avanços concretos rumo à integração produtiva, à harmonização regulatória ou à construção de agendas externas comuns, elementos requeridos para fortalecer o poder de barganha conjunto.

Esse quadro de fragmentação dificulta que a América do Sul reaja adequadamente a pressões econômicas como o aumento recente de tarifas sem critério econômico aparente, ou restrições ao comércio baseadas em argumentos ambientais. Sem uma plataforma consolidada de articulação, os países sul-americanos acabam lidando de forma independente com essas medidas coercitivas, ignorando a possibilidade de fortalecer sua capacidade negocial mediante ações conjuntas, neutralizando o caráter assimétrico inerente à geoeconomia. 

Por último, cabe destacar que a transição energética constitui oportunidade especial para a região, detentora de recursos minerais e energéticos essenciais para o redesenho das cadeias globais de valor e a consolidação de tecnologias verdes. Embora a América do Sul disponha de abundância de ativos naturais, faltam arranjos institucionais de coordenação, o que dificulta que seus países se convertam de atores passivos a ativos no cenário geoeconômico global. O subcontinente ainda adota uma abordagem fraturada da geoeconomia, tendo restringidas sua competitividade e inserção internacional. Desencontros pontuais não deveriam afetar estratégias de longo prazo. 

Notas

[1] Apenas o Mercosul possui uma tarifa externa comum. Os dados para os demais blocos são apenas indicativos do grau de abertura comercial de seus membros. 

Referências Bibliográficas

Austvik, Ole Gunnar. 2018. “Concepts of Geopolitics and Energy Security. IAEE Energy Forum: 25-28. https://scholar.google.com/citations?view_op=view_citation&hl=no&user=WiIdS3wAAAAJ&citation_for_view=WiIdS3wAAAAJ:Mojj43d5GZwC.

Baracuhy, Braz. 2015. “Geoeconomia: a Lógica Geopolítica no Comércio Mundial.” Política Externa 24 (1-2): 93-106.

Barros, Pedro S. 2023. “A América do Sul no tempo do Bicentenário da Independência do Brasil: revitalização da Unasul e reconstrução da integração regional.” Revista USP 136: 113-144. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.i136p113-144.

Baru, Sanjaya. 2012. “Geo-economics and Strategy.” Survival: Global Politics and Strategy 54 (3): 47-58. http://dx.doi.org/10.1080/00396338.2012.690978.

Baumann, Renato. 2022. “Os Acordos Comerciais do Brasil.” Nota Técnica nº 41. Brasília: Ipea. 

Baumann, Renato. 2025. “A Geoeconomia e a Estrutura Produtiva Brasileira.” Texto para Discussão nº 3078. Brasília: Ipea.

CEPAL. 1994. El regionalismo abierto en América Latina y el Caribe: la integración económica al servicio de la transformación productiva con equidad. Santiago: CEPAL.

CEPAL. 2025a. Foreign Direct Investment in Latin America and the Caribbean, 2025. Santiago: CEPAL.

CEPAL. 2025b. “Foreign Direct Investment in Latin America and the Caribbean Increased 7.1% in 2024, Totaling 188,962 Million Dollars.” CEPAL, 17 de julho de 2025. https://www.cepal.org/es/comunicados/inversion-extranjera-directa-america-latina-caribe-aumento-71-2024-totalizando-188962.

Clayton, Christopher, Matteo Maggiori & Jesse Schreger. 2024. A Framework for Geoeconomics. NBER Working Paper 31852. http://www.nber.org/papers/w31852.

Ferrari-Filho, Fernando. 2014. “A Regional Arrangement Proposal for the UNASUR.” Brazilian Journal of Political Economy 34 (3): 413-432. https://doi.org/10.1590/S0101-31572014000300004.

Haffner, J. 2002. “A Cepal e a integração regional latino-americana.” Análise Econômica 20 (37): 107-127. https://doi.org/10.22456/2176-5456.10690.

International Energy Agency (IEA). 2025. Countries and Regions. https://www.iea.org/countries/.

Jaeger, Bruna & Pedro Vinicius P. Brites. 2020. “Geoeconomics in the Light of International Political Economy: A Theoretical Discussion.” Brazilian Journal of Political Economy 40 (1): 22-36. https://doi.org/10.1590/0101-31572020-2982.

Mattlin, Mikael & Mikael Wigell. 2016. “Geoeconomics in the Context of Restive Regional Powers.” Asia Europe Journal 14 (2): 125-134. https://doi.org/10.1007/s10308-015-0443-9.

Moraes, Henrique C. 2024. “The Changing Logic of International Economic Law.” UCLA Journal of International Law and Foreign Affairs 27(2): 115-184. https://ssrn.com/abstract=4722845.

Padula, Raphael. 2013. “A Geopolítica da Bacia do Pacífico e a integração regional na América do Sul.” Revista do Imea 1 (2): 30-47.

Padula, Raphael. 2014. “Da IIRSA ao Cosiplan da Unasul: a integração de infraestrutura na América do Sul nos anos 2000 e suas perspectivas de mudança.” In O Brasil e novas dimensões da integração regional, Walter Desiderá (ed): 291–352. Brasília: Ipea. https://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/19978.

Torres, I. 2006. “Acordos de livre comércio, desnacionalização e sistemas financeiros: os casos do Brasil, Chile e México.” Tese de Doutorado UnB.

United Nations Commodity Trade Statistics Database (UN Comtrade). 2025. https://comtradeplus.un.org/.

U.S. Geological Survey (USGS). 2025. Mineral Commodity Summaries 2025. Reston: USGS.

Vieira, Jefferson. 2015. “As experiências de integração da ALALC e ALADI.” Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas 9 (1): 27-56.

Wigell, Mikael, Heiko Borchert, Edward H. Christie, Christian Fjäder & Lars-Hendrik Hartwig. 2022. “Navigating Geoeconomic Crisis – Towards an International Business Risk and Resilience Monitor.FIIA Report 71. https://fiia.fi/en/publication/navigating-geoeconomic-risks.

World Bank. 2020. Doing Business 2020: Comparing Business Regulation in 190 Economies. Washington, DC: World Bank.

World Bank. 2025. World Development Indicators. https://databank.worldbank.org/source/world-development-indicators.

World Integrated Trade Solution (WITS). 2025. https://wits.worldbank.org/.

World Trade Organization (WTO). 2025. Database on Preferential Trade Arrangements. https://ptadb.wto.org/.

Yu, Hong. 2017. “Motivation behind China’s ‘One Belt, One Road’ Initiatives and Establishment of the Asian Infrastructure Investment Bank.” Journal of Contemporary China 26 (105): 353-368. https://doi.org/10.1080/10670564.2016.1245894.

Zardo, Luiz. 2019. “Processos de integração e cidadania regional no MERCOSUL.” Revista MERCOSUR de Políticas Sociais 3: 45-68. https://doi.org/10.28917/ism.2019-v3-45.

Recebido: 28 de outubro de 2025

Aceito para publicação: 7 de maio de 2026

Copyright © 2026 CEBRI-Revista. Este é um artigo em acesso aberto distribuído nos termos da Licença de Atribuição Creative Commons, que permite o uso irrestrito, a distribuição e reprodução em qualquer meio, desde que o artigo original seja devidamente citado.

PUBLICAES RELACIONADAS