O mundo passa por graves incertezas no comércio global, face à volatilidade das tensões geopolíticas derivadas da guerra no Oriente Médio, da guerra entre Rússia e Ucrânia e da política de imposição de tarifas aplicadas pelo governo Trump. O Brasil, apesar de um cenário global marcado de inflexões geoeconômicas e geopolíticas, conseguiu demonstrar capacidade de crescimento. A balança comercial do primeiro semestre de 2026 lança luz sobre dados importantes.
Ao longo do primeiro semestre de 2026, o comércio exterior brasileiro apresentou a tendência ascendente manifestada durante o primeiro trimestre, apesar da expressiva redução no intercâmbio comercial com os Estados Unidos. As exportações alcançaram US$ 184,77 bilhões, registrando crescimento de 6,1% em relação à média anual de 2025, e de 11,49% na comparação com o primeiro semestre de 2025; as importações, por sua vez, totalizaram US$ 142,4 bilhões, com alta de 1,65% em relação à média anual de 2025 e de 5,08% na comparação intersemestral.
Os resultados do primeiro semestre reforçam algumas tendências observadas nos últimos anos. Mesmo em um ambiente internacional marcado pelo aumento do protecionismo e pela maior fragmentação da economia global, o comércio exterior brasileiro manteve trajetória de crescimento. Nesse contexto, os resultados observados ao longo do semestre podem sinalizar novas direções para a inserção internacional do Brasil e para uma possível ampliação da diversificação de seus parceiros comerciais.
Ainda que seja um crescimento conjuntural, os resultados do primeiro semestre apontam para caminhos que poderão ser explorados nos próximos meses. Por exemplo, observa-se uma redução da participação relativa dos Estados Unidos nas exportações brasileiras, acompanhada pela expansão das relações comerciais com parceiros da União Europeia, da América do Norte e da Ásia. Ou seja, isso pode apontar para potenciais trajetórias de diversificação dos fluxos comerciais brasileiros, tema que deverá ser acompanhado nos próximos períodos.

Tabela 1 – Balança comercial: 1º semestre (médias mensais em US$ bilhões).
A) ACELERAÇÃO DA CORRENTE DE COMÉRCIO NO 2º TRIMESTRE DE 2026
Um fato notável, no período, foi a forte aceleração na corrente de comércio durante o 2º trimestre (+17,4% em relação ao 1º trimestre), com um crescimento de 24,05% nas exportações e 8,83% nas importações, resultando em um superávit significativamente acima da média anual de 2025 (24,4%) e do 1º trimestre de 2026 (40,1%).

Tabela 2 – Balança comercial: 1º e 2º trimestres (médias mensais em US$ bilhões).
Entre os fatos que contribuíram para esse incremento de ≈US$ 20 bilhões na receita de exportação, podem ser identificados:
Esses cinco produtos (petróleo e derivados, soja, carne bovina, minério de cobre e ouro) responderam conjuntamente por um aumento de US$ 17,67 bilhões nas exportações brasileiras, representando mais de 90% do crescimento do primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Ainda assim, outros produtos também apresentaram variações expressivas, tanto positivas quanto negativas, conforme apresentado na tabela e nos textos a seguir.
B) DESEMPENHO DA CORRENTE DE COMÉRCIO

Tabela 3 – Principais produtos exportados (quadro da esquerda) e importados (quadro da direita) no 1º semestre de 2026 (em US$ bilhões).
A.1 - Exportações: na comparação intersemestral 2026/2025, observa-se, no 1º semestre 2026, um crescimento expressivo em grande parte dos itens da pauta de exportação:
Esses resultados positivos, em conjunto, mais do que compensaram as quedas em café (-17,1%), açúcar e etanol (-27%) e veículos terrestres (-11,68%).
A.2 – Importações: as importações permaneceram, no período abril-junho, no padrão observado no 1º trimestre, de um crescimento significativo na importação de bens de consumo duráveis (+37,5% em veículos e +7,5% em equipamentos eletrônicos), contrastando com uma redução na importação de bens de capital e de produtos intermediários intensivos em tecnologia (-13,17% no item “Máquinas e Equipamentos” e -3,4% no item “Aeronáutica e Espacial”).
No item “Veículos”, teve grande peso o crescimento da importação de “carros de passeio” (87% em relação ao 1º semestre de 2025), especialmente a importação de carros elétricos, que no primeiro semestre de 2026 foi mais do que o dobro (US$ 2,10 bilhões) do total importado no ano de 2025. Isso ocorre em antecipação à implantação pelo Brasil de tarifas de importação a partir do 2º semestre, principalmente quando se observa que o Brasil já importou mais veículos da China no primeiro semestre do que importou em 2025 inteiro.
D) PRINCIPAIS PARCEIROS NO COMÉRCIO INTERNACIONAL – 1º SEMESTRE 2026
Na composição dos parceiros comerciais, torna-se ainda mais evidente a reorganização das cadeias quando se observa que, enquanto as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 13%, cresceram 12,8% para a União Europeia, 19,2% para o México, 28,1% para a Turquia, 15% para o Reino Unido, 13% para o Japão e 88,7% para a Índia. Os dados sugerem que parte da redução das vendas ao mercado norte-americano vem sendo compensada pelo fortalecimento da presença brasileira em outros mercados.
Pelo lado das importações, também se observa uma mudança relevante na estrutura dos fornecedores brasileiros. Enquanto as importações provenientes dos Estados Unidos recuaram 12,6%, cresceram 31,4% as compras originárias do Canadá, 28,1% do México e 127% da Coreia do Sul. Esse movimento reforça que a diversificação não ocorre apenas nos mercados de destino das exportações, mas também entre os principais fornecedores internacionais do Brasil.
Apesar disso, examinando-se a tabela 4, observa-se também que as maiores correntes de comércio do Brasil continuam sendo: China (29,6%), União Europeia (15,6%), Estados Unidos (11,1%), Mercosul (6,1%) e os países da Asean (5,5%), notando que os progressos dos últimos anos em relação aos países da Asean (corrente de comércio = U$ 18,27 Bi) quase os nivelam – com uma diferença de ≈10% – com o Mercosul (corrente de comércio = U$ 20,05 bilhões).

Tabela 4 – Principais parceiros de comércio internacional – 1º semestre de 2026 (em bilhões de US$).
O dado mais emblemático dessa reorganização é a redução da participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras para menos de 10% pela primeira vez no período analisado. Em sentido oposto, o crescimento das relações com União Europeia, Coreia do Sul, Turquia, México, Canadá e economias asiáticas demonstra que a expansão do comércio brasileiro deixou de depender exclusivamente de mercados tradicionais.
Além desse panorama geral, algumas ocorrências — enquanto esforços de diversificação — podem ser apontadas como exemplos de progresso:

Tabela 5 – Participação dos EUA na exportação brasileira de máquinas e equipamentos (em bilhões de US$).
O setor, no entanto, conseguiu manter uma tendência ao crescimento com um perfil diversificado de clientes:

Tabela 6 – Parceiros brasileiros para exportação de máquinas e equipamentos no 1º semestre de 2026 (em bilhões de US$).
Observe-se a relevância do mercado da América Latina (sendo a Argentina, individualmente, o 2º maior país comprador) , cuja participação é superior à de outros blocos econômicos, como a UE.
É, portanto, significativa a incorporação, em 2026, de um novo fornecedor, o Turcomenistão, que iniciou o 1º trimestre com um valor de US$ 133 milhões, que foi dobrado para US$ 237,80 milhões no 2º trimestre e chegou a US$ 428,69 milhões no 1º semestre, tornando-se um fornecedor relevante (6% das importações totais brasileiras).
Embora parte desse crescimento decorra de operações específicas, o movimento representa um dos primeiros resultados concretos da ampliação das relações comerciais brasileiras com grandes economias asiáticas além da China. Paralelamente, a corrente de comércio com os países da ASEAN alcançou US$ 18,27 bilhões, aproximando-se dos níveis registrados com o Mercosul e reforçando a crescente importância do Sudeste Asiático para a estratégia comercial brasileira.
E) DESEMPENHO COMERCIAL COM OS EUA
Mesmo permanecendo como o terceiro principal parceiro comercial do Brasil, os Estados Unidos perderam relevância relativa ao longo do primeiro semestre. Sua participação na corrente de comércio caiu de 13,5% para 11,1%; nas exportações, de 12% para 9,4%; e nas importações, de 15,5% para 13,3%. A decisão americana, no 2º semestre de 2025, de aplicar severas tarifas ao comércio com o Brasil, teve como efeitos: (a) uma imediata redução nas exportações brasileiras a partir de agosto de 2025; (b) um efeito diferido sobre as importações a partir de janeiro 2016, com a consequência de que, ao final do 1º trimestre de 2026, a Corrente de Comércio havia caído 20,5% (-24,5% às exportações e -17,5% nas importações).
No entanto, seus efeitos têm sido desiguais:

Tabela 7 – Principais produtos exportados para os EUA impactados pelas tarifas (US$ milhões).
Observam-se, portanto, fortes quedas que ainda permanecem em 2026 (em relação aos níveis do "ano pré-tarifas" de 2024), não somente em segmentos como a siderurgia (-8,3%), sujeita à Seção 232, como também em áreas sob o regime "MFN", tais como papel e celulose (-25,38%), peixes e crustáceos (-38,5%), madeira e mobiliário (-41,1%), sumos de frutas (-31,3%), veículos terrestres (-32,9%), gorduras vegetais (-30,7%) e calçados (-21,1%).
Se, por um lado, as quedas descritas acima seriam previsíveis, surpreende a resiliência de segmentos como máquinas e equipamentos (nível equivalente ao de 2024) e alumínio, com um crescimento excepcional (+143,1%) devido ao aumento de valor do material desde a entrada em vigor das tarifas em 2025. Nesse sentido, apesar do maior faturamento, a exportação de alumínio e suas obras caiu de 68.573 toneladas no primeiro semestre de 2024 para 47.270 toneladas no mesmo período de 2026 (queda de 31,1%).
Ao longo do 2º trimestre, no entanto, tem-se notado — apesar da persistência dos sérios problemas setoriais apontados acima — uma recuperação progressiva dos níveis pré-tarifa da corrente de comércio. Apesar da média trimestral ainda se situar em -8,93% (-5,5% nas exportações e -12,05% nas importações), o mês de junho (média mensal de US$ 3,22 bilhões em exportações) já converge para os níveis "pré-tarifa".

Tabela 8 – Médias mensais de exportação para os EUA (em bilhões de US$).
Com a redução do comércio com os EUA e, simultaneamente, o crescimento da corrente de comércio do Brasil com todos os destinos, o efeito é uma forte redução da participação dos EUA no comércio com o Brasil: de 13,51% para 11,12% na corrente de comércio, de 11,98% para 9,43% nas exportações e de 15,46% para 13,31% nas importações (em relação aos níveis pré-tarifa). Outro efeito da redução na corrente de comércio tem sido o estreitamento do (tradicional) superávit americano com o Brasil, chegando muito perto de zero no 2º trimestre.
Assim como, em agosto de 2025, a implantação de tarifas veio interromper uma trajetória ascensional da corrente de comércio (que apresentava, entre janeiro e julho, um crescimento de 1% em relação a 2024), também será interrompida a tendência ascendente (estando quase restabelecidos, em junho, os níveis pré-tarifa), caso, em 15 de julho de 2026, as decisões decorrentes do processo USTR 301 imponham novas condições restritivas às relações econômicas entre EUA e Brasil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora o Brasil seja atualmente a 11ª maior economia do mundo, sua participação no comércio internacional permanece inferior a 1,5%, ocupando apenas a 25ª posição entre os maiores exportadores globais. Os resultados do primeiro semestre indicam que existe espaço para aproximar o peso da economia brasileira de sua presença no comércio internacional, combinando três principais fatores: i- abertura de novos mercados; ii- diversificação de parceiros comerciais; e iii- fortalecimento da competitividade doméstica.
Independentemente do desfecho da investigação conduzida pelos Estados Unidos, os resultados do primeiro semestre apontam para uma tendência mais estrutural: a reorganização gradual da inserção internacional brasileira. O desafio para os próximos anos deixa de ser apenas ampliar exportações e passa a consistir em diversificar mercados, fornecedores, fontes de investimento e parcerias tecnológicas, aproximando o peso da economia brasileira de sua ainda reduzida participação no comércio internacional.
Recebido: 14 de julho de 2026
Aceito para publicação: 21 de julho de 2026
Copyright © 2026 CEBRI-Revista. Este é um artigo em acesso aberto distribuído nos termos da Licença de Atribuição Creative Commons, que permite o uso irrestrito, a distribuição e reprodução em qualquer meio, desde que o artigo original seja devidamente citado.