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Analysis of the Brazilian Trade Balance

First Quarter 2026
Image: Shutterstock.

Em análise anterior realizada pelo CEBRI (Corrêa do Lago & Cimini 2026) sobre o desempenho da Balança Comercial no ano de 2025, foi observado que a receita cambial do Brasil se havia beneficiado, de forma significativa, de windfalls em 3 setores específicos – carne bovina, café e veículos, somando ≈US$ 11 bilhões – os quais, individualmente, mais do que compensavam a queda de receita nas exportações para os EUA; mas alertava para o fato de que, por só ter incidido no 2º semestre, a variação negativa de US$ 2,6 bilhões, no total das exportações para os EUA em 2025, constituía uma subestimativa do “custo” resultante da nova política tarifária americana. A queda abrupta (≈20%) ocorrida a partir de agosto – quando a média mensal passou de ≈US$ 3,5 bilhões para um novo patamar de ≈US$ 2,5 bilhões – corresponde, no total registrado de vendas para o mercado americano, a um valor anualizado de US$ 30 bilhões (contra US$ 40 bilhões em 2024 e US$ 37,7 em 2025).

Portanto, a balança comercial brasileira começa o ano de 2026 com um possível handicap de ≈US$ 20 bilhões em relação a 2025: (a) pela provável não-recorrência do excepcional desempenho observado em 2025 nos 3 setores acima; (b) e, no mercado americano, se não vier a ocorrer uma recuperação dos espaços que foram perdidos a partir do 2º semestre de 2025.

Essa tendência desfavorável pareceu confirmar-se ao longo do 1º trimestre de 2026: 

- em relação aos EUA, as exportações não demonstraram reação, permanecendo no “novo patamar pós-tarifas” (média de US$ 2,5 bilhões) que prevalece desde o 2º semestre de 2025; 

- nas exportações de café e veículos – que haviam batido recordes históricos em 2025 – a queda de receita foi, respectivamente, de 20% (em função de preços) e 9% (em função de volume);

- no setor de carne bovina, o qual apresentou sinais ambíguos: apesar de que em 2026 o volume de exportação para a China deverá ser 35% menor que em 2025, – em função da redução da cota para 1,1 milhão de toneladas (contra uma exportação de 1,68 milhão de toneladas em 2025) –, o desempenho no 1º trimestre (37% acima de igual período em 2025) dá a ilusão de um acentuado crescimento, quando na realidade trata-se de um massivo frontloading da nova cota, a qual, segundo o setor, deverá estar inteiramente preenchida até maio; a consequência desse volume excepcional nos primeiros meses do ano será a de uma redução correspondente no 2º semestre.

O viés desfavorável apontado acima parece, à primeira vista, “desmentido” pelos números positivos do 1º trimestre divulgados pelo MDIC: crescimento de 4,4% na corrente de comércio (US$ 150,5 bilhões) e de 47,6% no saldo da balança comercial (US$ 15 bilhões em 2026 x US$ 9 bilhões em 2025), resultantes de um crescimento tanto das exportações (7,1%) quanto das importações (1,3%).

Tabela 1 – Balança Comercial: 1º trimestre 2025 e 2026 e média móvel de 12 meses (em US$ bi)

Tabela 1 – Balança Comercial: 1º trimestre 2025 e 2026 e média móvel de 12 meses (em US$ bi).

DESEMPENHO DA CORRENTE DE COMÉRCIO

No entanto, examinando os números mais de perto, observa-se que o desempenho positivo da corrente de comércio no trimestre deveu-se principalmente a alguns movimentos de natureza conjuntural, concentrados em itens específicos – tais como: petróleo, ouro, cobre, soja e carne bovina, pelo lado da exportação e pelo lado da importação carros elétricos e equipamento de perfuração de petróleo – e em poucos países (China, Índia, Coreia do Sul, União Europeia e Emirados Árabes Unidos), apresentando uma relativa estagnação em áreas que haviam demonstrado dinamismo em 2025, tais como Mercosul (-12%) e países da Asean (-1,3%).

Tabela 2 – Corrente de Comércio - 1º trimestre 2026 e 2025 (em US$ bi).

Tabela 2 – Corrente de Comércio - 1º trimestre 2026 e 2025 (em US$ bi)

Na comparação inter-trimestral (2026 e 2025), observa-se que: 

a) no intercâmbio com os EUA, persistiram os efeitos restritivos das políticas   adotadas em agosto 2025, acumulando uma queda de 15% na corrente de comércio; 

b) a China aumentou a sua participação na corrente de comércio brasileira (28%), com um crescimento de 8%: as exportações brasileiras apresentaram um crescimento de 21%,  em parte pelo  frontloading  da cota (anual) de carne bovina, mas sobretudo pelo excepcional crescimento de 123% nas vendas  de petróleo. Pelo lado das importações, o grande destaque foi o aumento nas compras de carros elétricos, em antecipação a um aumentos de tarifas:  o item “Importação de veículos e acessórios” saltou de um total  anual de  US$ 763 milhões  em 2025  para um valor de US$ 2,16 bilhões no 1º trimestre significando um crescimento de 182%; 

c) o crescimento significativo observado na corrente de comércio com a Coreia do Sul, a Índia e os EAU aparece como um dos primeiros resultados tangíveis do esforço da  diplomacia comercial brasileira,  no sentido da ampliação e diversificação de mercados: diferentemente da Coreia do Sul, cujo salto nas importações  no 1º trimestre (de US$ 1,37 em 2025  para US$ 4,04 em 2026) se explica por um evento pontual – a compra de uma plataforma de perfuração no valor de US$ 2,4 bilhões – a recente abertura do mercado indiano para o petróleo brasileiro (importações no valor de ≈US$ 1 bilhões no trimestre) tem um caráter recorrente,  o país tendo se tornado o  2º maior destino para o produto brasileiro; no caso dos EAU, o incremento de US$ 1 bilhões na corrente de comércio se deve a uma “mão dupla” (exportação brasileira de ouro e importação de Diesel); 

d) podem também ser notadas taxas elevadas de crescimento, em termos relativos, observadas no México (24%), Vietnã (17%),  Canadá (10%) e Turquia (5%) que, no entanto não  se traduzem ainda, em termos absolutos, em valores expressivos. 

DESEMPENHO DAS EXPORTAÇÕES – PRINCIPAIS ITENS

As exportações brasileiras no período janeiro-março 2026 estão examinadas, na tabela 3, sob dois ângulos distintos: 

a) o da comparação inter-trimestral (coluna “c”), pelo qual são numerosos os itens que, em jan-mar 2026, se apresentam com taxas positivas em relação ao período jan-mar 2025; 

b) o da comparação entre a receita média mensal no 1º trimestre de 2026 com a média anual em 2025 (coluna “f”), que aponta – em uma perspectiva mais longa – para uma combinação de ausência de crescimento com queda de receita (média) na quase totalidade dos itens, inclusive numerosos itens que, na comparação inter-trimestral, aparecem com variação positiva, tais como: soja, milho, carne bovina, minério de ferro, equipamentos & máquinas e aeronáutica.

Tabela 3 – Exportações 1º trimestre de 2026: itens principais (US$ bi).

Tabela 3 – Exportações 1º trimestre de 2026: itens principais (US$ bi).

Os itens que se apresentaram com taxas positivas, sob ambos os critérios, foram: 

a) ativos de reserva de valor: principalmente o ouro (+90% na comparação trimestral e 42% na comparação anual), o que explica o aumento das exportações para grandes centros financeiros com Reino Unido, Suíça e Emirados Árabes Unidos; e minerais estratégicos necessários para a transição energética, tais como o minério de cobre (+65% na comparação trimestral e 26% na comparação anual); 

b) o petróleo (+15% na comparação trimestral e 11% na comparação anual), cujo desempenho excepcional não se deveu (ainda) à escalada de preços subsequente ao início das hostilidades no Golfo (o preço médio de US$ 59,1/barril dos embarques realizados em janeiro-março de 2026 reflete níveis de mercado em 2025), e sim ao crescimento espetacular – em termos volumétricos – das importações de petróleo por parte da China (+US$ 3,6 bilhões) que, em um curto espaço de tempo, mais do que dobrou o seu volume de importações do Brasil, passando de importações de 7,5 para de 16 bilhões de toneladas (+123%). 

DESEMPENHO DAS IMPORTAÇÕES – PRINCIPAIS ITENS

abela 4 – Importações 1º trimestre de 2026: itens principais (US$ bi).

Tabela 4 – Importações 1º trimestre de 2026: itens principais (US$ bi).

Pelo lado das importações brasileiras, os dados do 1º trimestre apontam para:

- uma perda de dinamismo no ritmo de crescimento das importações, na comparação entre a média do trimestre (+1,3%) e a taxa anual (6,66%) em 2025;

- essa perda de dinamismo na maior parte dos itens, se reflete na comparação entre as receitas médias no 1º trimestre com as receitas médias observadas no ano de 2025 (coluna “f”), inclusive em itens que apresentaram variação positiva na comparação inter-trimestral (coluna “c”);

- uma mudança de padrão na composição das importações em favor de bens de consumo duráveis (+26% na importação de veículos, passando  de US$ 4,5 bilhões em 2025 para US$ 5,9 bilhões em 2026), contrastando com um decréscimo (-9%) na importação de bens de capital (US$ 17,6 bilhões em 2026 vs US$ 19,3 bilhões em 2025 no  item “Máquinas e Equipamentos”);

- um maior grau de diversificação alcançado junto a fontes de suprimento:  aumentos expressivos no México (+53%), no Reino Unido (+39%), e Taiwan (+18%) compensaram parcialmente a redução de 42% nas importações dos EUA do item "Máquinas e Equipamentos"; o crescimento de 305% (de US$ 74 em 2025 para US$ 299 milhões 2026) nas importações de Diesel dos EAU mais do que compensaram a redução no fornecimento por parte dos dois maiores exportadores para o Brasil (Rússia e EUA); na área de fertilizantes, – considerando  a dependência do agronegócio brasileiro em relação a um número reduzido de países – foi particularmente significativa a adição do Turcomenistão enquanto novo e relevante fornecedor: o valor de US$ 237 Milhões no 1º trimestre se compara favoravelmente aos dos dois maiores fornecedores do Brasil: 33% da Rússia (US$ 700 Milhões) e 62% do Canadá (US$ 380 Milhões).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nos números relativos ao 1º trimestre de 2026 podem ser destacados os seguintes aspectos:

Sinais de perda de dinamismo nas importações (taxa de crescimento de 1,3% em 2026 vs 6,6% em 2025) acompanhada de uma mudança de padrão na sua composição, com redução na importação de bens de capital, e aumento na importação de bens de consumo (notadamente carros elétricos).

Declínio (em comparação com as médias anuais observadas em 2025) nas receitas de quase todos os itens da pauta de exportação, compensado pelo crescimento excepcional de poucos itens, especialmente sensíveis ao aumento de incertezas no cenário geopolítico: ativos de reserva de valor (ouro e minerais estratégicos) e petróleo (grande crescimento volumétrico por parte da China e da Índia).

A persistência, em relação ao mercado americano, das condições desfavoráveis que resultaram da nova política aduaneira, refletidas nas quedas de 18% nas exportações e de 11% nas importações, na comparação entre o 1º trimestre de 2026 com o de 2025.

Em relação à China, manteve-se um forte dinamismo tanto nas exportações (com o excepcional redirecionamento quantitativo das compras de petróleo em favor do Brasil) quanto nas importações (números recorde na comercialização de carros elétricos). 

No desiderato da diversificação da corrente de comércio, seja em termos geográficos ou de ampliação da pauta, devem ser apontados alguns avanços significativos, ainda que pontuais, tais como o incremento das correntes de comércio com a Coreia do Sul e Índia, e a identificação de novas fontes de suprimento como Turcomenistão (fertilizantes) e os EAU (Diesel). No entanto, a iniciativa que – de um ponto de vista estrutural – abre as mais amplas perspectivas (combinando comércio, investimentos, e inserção em cadeias produtivas) é o Acordo Mercosul-UE que se torna operacional a partir de Maio 2026. 

Apesar de alguns avanços significativos no sentido de uma maior diversificação, deve ser notado que o crescimento da corrente de comércio no 1º trimestre 2026 se deveu menos a uma adaptação estrutural do comércio exterior brasileiro frente aos seus principais desafios, que a movimentos de conjuntura (petróleo, ouro) refletindo as crescentes tensões de natureza geopolítica no cenário internacional.

Referências Bibliográficas

Corrêa do Lago, Manoel & Fernanda Cimini. 2026. “A balança comercial brasileira em tempos de protecionismo: o imperativo da diversificação”. CEBRI-Revista: online. https://cebri.org/revista/br/artigo/258/a-balanca-comercial-brasileira-em-tempos-de-protecionismo.

Recebido: 13 de maio de 2026

Aceito para publicação: 14 de maio de 2026

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