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Three Mile Island, Chernobyl, Fukushima: fim da geração nucleoelétrica?

20/03/2014

Odilon Marcuzzo do Canto

O terceiro aniversário dos eventos naturais que provocaram os acidentes na central nuclear Fukushima Daiichi, no Japão, representa um momento oportuno para reflexões sobre o futuro da indústria nuclear no mundo.

Análises precipitadas tentam inferir da série de acidentes – Three Mile Island (EUA, 1979), Chernobyl (Rússia, 1986) e Fukushima (Japão, 2011) – a constatação de que essa é uma tecnologia perigosa que, com frequência, escapa do controle, produzindo efeitos catastróficos. A conclusão lógica seria, portanto, o imediato abandono da geração nucleoelétrica.

Esta linha de raciocínio parte de premissas erradas e chega a conclusões equivocadas. Os três eventos têm origens e consequências diferentes. Em Three Mile Island, a falha no fechamento de uma válvula levou a interpretações erradas dos indicadores e sensores do painel de controle da central nuclear. Não houve nenhuma contaminação de humanos, nem maiores consequências para o ambiente. 

O acidente em Chernobyl aconteceu num reator com tecnologia ultrapassada; uma pilha de grafite, de tecnologia primária, sem as condições mínimas de segurança. Teve como causa principal o despreparo dos operadores e a obsolescência da tecnologia.

Após Three Mile Island e Chernobyl, os reatores nucleares incorporaram  inovações tecnológicas para maior segurança de operação. Os sistemas internacionais e nacionais de regulamentação e controle criaram novas exigências e procedimentos, garantindo maior segurança para os trabalhadores e para a população.

O acidente em Fukushima foi desencadeado por eventos naturais de intensidade fora de escala daqueles esperados pelos modelos científicos até então considerados. Não houve ações equivocadas ou falta de ação dos operadores, nem tampouco falha em dispositivos associados.

Quando ocorreu o terremoto, a região atingida contava com 11 reatores nucleares em plena operação e 3 em manutenção. Todos os reatores foram levados a parar pelos sistemas de segurança, projetados para esse tipo de evento. Com a destruição das redes elétricas externas e a incapacitação dos sistemas de arrefecimento secundários causados pelo tsunami, o calor residual provocou a fusão dos núcleos de três dos reatores, com todas as consequências que se seguiram.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) avalia que, apesar da extensão do acidente, nenhuma pessoa recebeu doses letais de radiação ou doses que predisponham a contrair qualquer tipo de câncer.

As reações dos países aos eventos em Fukushima têm sido as mais variadas. A Alemanha decidiu impor uma moratória na expansão de seu parque nucleoelétrico.  Todavia, China e Índia, os dois principais destinos de reatores nos próximos vinte anos, não modificaram em nada suas expectativas.

O programa nuclear brasileiro não deverá ser afetado também. Está previsto o término da construção do reator 3 da Central Nuclear de Angra dos Reis e mais quatro reatores em local a ser definido, provavelmente no nordeste.

O programa inclui também a construção do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB) e o desenvolvimento do reator de propulsão de submarino nuclear, pela Marinha Brasileira.

No próximo dia 21, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e a Seção Latino-americana da Sociedade Nuclear Americana (LAS/ANS) abordarão essas questões em um evento com a participação do Painel Internacional sobre Matéria Físsil – grupo independente composto por peritos nucleares de diversas nacionalidades. O Seminário, que é aberto ao público e acontece no Rio de janeiro, debaterá os ensinamentos de Fukushima para o aprimoramento de regras e procedimentos de segurança nuclear e discutirá os esforços nacionais em busca do pleno desenvolvimento no setor. O Brasil é um dos únicos países do mundo que, ao lado de ser detentor de capacidade tecnológica no ciclo completo do combustível nuclear, é dono de uma das maiores reservas de urânio do mundo.



Centro Brasileiro de Relações Internacionais