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O conflito na Síria, a (in)ação internacional e os principais atores envolvidos

10/10/2013

Leonardo Paz

Já há mais de um ano se estende uma bárbara guerra civil na Síria, na qual o Governo do atual Presidente Bashar Al-Assad enfrenta uma série de grupos rebeldes, que tem como seu principal personagem a National Coalition e mais uma miríade de grupos como o Free Syrian Army, al-Nusra Front (que tem relações com o grupo Al Quaeda), outros nove ou dez grupos.

Os números do conflito, até o momento, também assuntam. Segundo a ONU, são mais de cem mil mortos, sendo cerca de mil e quinhentos por armas químicas. Dois milhões de refugiados, três milhões de deslocados internos e mais de cinquenta mil desaparecidos.

Diante disso tudo é difícil não constatar que há uma tragédia humanitária em andamento na Síria – e com poucas chances de um desfecho a curto prazo. Dessa forma, nos resta nos questionar, qual tem sido o papel da comunidade internacional em tudo isso. Afinal, desde 2005, a iniciativa da Responsabilidade de Proteger estabelecida no World Summit, daquele ano, já determinava uma série de princípios que conferia a comunidade internacional a responsabilidade de agir[1] em situações de desastres humanitários, como os que estão ocorrendo na Síria.

Fato é que apesar de tudo, nada ainda foi feito. O Conselho de Segurança das Nações Unidas, ainda não conseguiu chegar a um consenso (pelo menos não entre os cinco membros permanentes) em praticamente nenhuma ação efetiva que possa diminuir o sofrimento dos civis e cessar as hostilidades. Deste modo, é interessante ver rapidamente a posição de alguns dos principais atores (fora da Síria) envolvidos na (in)ação internacional até o momento.

 

EUA

Uma das principais vozes a favor da intervenção na Síria, o governo norte americano foi um dos primeiros a pedir a saída do presidente sírio - ainda que tenham dificuldade de identificar quem seria o “melhor” ator a assumir o poder. Após o uso de armas químicas, supostamente pelo governo sírio, Obama renovou seus esforços, inclusive levando ao Congresso um plano de “punição” a Síria. O debate no Congresso foi interrompido pela proposta/ação russa. Com a aceitação do governo sírio, Obama deu um passo atrás e iniciou um “plano de trabalho” com os russo para a implementação desta proposta – de identificação e destruição de todo o arsenal de armas químicas na Síria. Até o momento, o governo sírio tem seguido o plano russo a risca, o que, de certa forma, refreou o ímpeto dos EUA e seus aliados em buscar uma saída mais dura.

 

França e Reino Unido

Ambos são os dois principais aliados dos EUA, apoiando inclusive o uso da força. Por um lado os franceses, assumindo uma postura bastante beligerante inclusive sendo o primeiro país a reconhecer os rebeldes sírios enquanto interlocutores legítimos. O Reino Unido, por sua vez, reagiu energeticamente, sobretudo após o ataque com armas químicas. Inclusive o Primeiro Ministro levou ao Parlamento uma proposta de retaliar o governo sírio pelo ataque – proposta essa que foi derrubada pelos deputados. Ambos países chegaram a ajudar os EUA rascunhar uma resolução de capítulo 7 no Conselho de Segurança, mas esse esforço foi suspenso pela proposta russa.

 

Rússia e China

Tanto a Rússia quanto a China, desde o inicio, bloquearam quaisquer possibilidades de qualquer tipo de resolução no Conselho de Segurança. Por um lado, os chineses tem tentado “ser a voz da razão” pedindo para que os países ocidentais não tirassem conclusões apressadas em relação ao que ocorre no campo, para não tomar decisões precipitadas. Naturalmente, essa postura para os americanos, britânicos e franceses julgam que essa postura chinesa tem apenas a intenção de protelar e impedir uma ação armada.

Pelo outro lado, os russos tem mais motivos para defender o regime de Assad. A Síria é um antigo aliado russo na região, inclusive tendo sua única base militar naval fora do território russo. Estes tem bloqueado qualquer ação mais rígida contra os sírios com base no respeito à soberania.

Ao mesmo tempo em que, após o ataque com as armas químicas, os americanos estavam debatendo no Congresso a opção militar, os russos desenvolveram um plano para identificar e destruir todo o arsenal de armas químicas sírios. A proposta russa foi prontamente aceita pelo regime de Assad. Essa noticia paralisou todas as demais alternativas (mais robustas) em relação à Síria.

 

Irã e países do Golfo

O Irã é neste momento o aliado de primeira hora do regime do Assad. É através do Irã que a Síria consegue ter acesso a importações para manter suas forças armadas e principalmente recursos (dinheiro). Inclusive, há algumas evidências de que há presença da Guarda Republicana iraniana lutando junto às forças de Assad. Por outro lado, os países do Golfo estão apostando contra Assad. Neste caso, alguns países tem ajudado a financiar os principais grupos rebeldes e (também a fala-se) contratando mercenários.

A proposta russa foi, definitivamente, um game changer. Por um lado ela “salvou” o governo norte americano de ter de promover um ataque punitivo a Síria que possivelmente não alteraria em nada a estabilidade de Assad e ao mesmo tempo se indisporia no Conselho de Segurança, pois tal ataque seria uma medida unilateral e não autorizada.

Ainda, os russos se saíram bem na foto, pois conseguiram intermediar um acordo, aceitável para todas as partes e que aparentemente está sendo seguido rigorosamente pelo governo sírio – apesar do ceticismo das potencias ocidentais.

Efetivamente, nada dessa dança diplomática afetou diretamente no conflito. Os únicos atores relevantes no campo, ao que tudo indica, são os países do Golfo que apoiam os rebeldes e o Irã (junto como Hezbolla) que tem apoiado o regime de Assad diretamente. É difícil predizer o resultado final deste imbróglio, mas definitivamente, a proposta russa foi um grande passo para a manutenção de Assad no poder.

 

[1] Estas ações podem ter caráter não coercitivo, menos coercitivo ou, de fato, coercitivos.



Centro Brasileiro de Relações Internacionais