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Nem toda unanimidade é burra: Nelson Mandela

11/12/2013

Marcos de Azambuja

Toda unanimidade é burra. A frase, certamente mais espirituosa do que verdadeira, é de Nelson Rodrigues. O tributo que o mundo presta nestes dias a Nelson Mandela prova que, muito ocasionalmente, a unanimidade não é só inteligente, mas também o reflexo irresistível de um sentimento universalmente compartilhado de admiração pela vida e pela obra de alguém que transcendeu os limites normalmente impostos por seu tempo e por sua circunstância. Mandela é um símbolo valioso para todos e um herói sob medida para os nossos dias. Depois daquela safra de personalidades de dimensões épicas que lideraram as democracias contra o nazi-fascismo na II Guerra Mundial – penso em Churchill, Roosevelt e de Gaulle –, tivemos alguns grandes líderes que definem a saga da emancipação de povos antes sob o domínio colonial. Avulta aqui a figura de Gandhi e alguns poucos líderes que conduziram seus povos à tão desejada e tão duramente conquistada independência.

Em muitos casos, os chefes dessas lutas saem do conflito (ou do cárcere) marcados por um intenso sectarismo (ou exacerbado tribalismo), e com uma medida de rancor incontornável, no curto e no médio prazos, contra os antigos amos e senhores. Isso é fácil de entender e não muito difícil de perdoar.

O que faz Mandela ainda mais excepcional é que os 27 anos de encarceramento não o fazem nem vingativo nem sectário. Deixa Robben Island inteiro e pronto para levar seu povo e seu país a uma independência que requeria que se estabelecesse um convívio complexo e que funcionasse com os antigos opressores. Dizer que Mandela não conseguiu fazer isso sozinho e que teve, em um importante setor da minoria branca, aliados valiosos (penso sobretudo em De Klerk), não diminui em nada seus méritos. É difícil lembrar algum processo conflitivo de emancipação nacional em que opressor e oprimido acabem por compartilhar um Prêmio Nobel da Paz.

Mandela também escapa da geometria rigorosa – e quase obrigatória – dos longos anos de Guerra Fria. Não é fácil situá-lo em um Sul oposto a um Norte, nem em qualquer ponto preciso do ultrapassado eixo Leste-Oeste. Conserva, é verdade, um reconhecimento especial aos países que apoiaram a luta sul africana pela paridade racial e que apoiaram o ANC nos difíceis anos de travessia do deserto. Mas esse seu reconhecimento não o fazia cego para os novos desafios criados pelo próprio sucesso de sua cruzada. Gosto de estabelecer algum paralelismo entre o estilo generoso e criativo de Mandela e as amarras que mantinham e mantêm Robert Mugabe, seu vizinho do Zimbábue, atado a formulas e desafios já ultrapassados.

Lembro que eu mesmo temia que a experiência Mandela não fosse funcionar e que a África do Sul deslizasse em direção à ruptura racial e, talvez, territorial. Não se pode excluir que isso venha a ocorrer em algum momento e não se pode contar, para a condução do dia a dia do governo de Pretória, com a presença iluminada de Nelson Mandela. Contudo, o que antes aparecia como uma probabilidade, hoje é percebida como uma remota possibilidade.

Conheci Mandela quando veio ao Brasil e quando estava eu temporariamente à frente do Itamaraty. Os anos de nossa maior aproximação com a África do Sul ainda estavam por vir. Não tínhamos ainda desenhado modelos eficazes de aproximação e os BRICS, e nossa parceria dentro desse esquema, ainda estavam no futuro distante. A moldura do IBAS ainda não tinha sido montada e a nossa mais estreita cooperação ainda estava por vir.

Em conversas e discursos, pude transmitir-lhe admiração e respeito. Não tinha Mandela a exuberância maliciosa do Bipo Desmond Tutu, que nessa mesma época nos visitou, mas transmitia uma serena autoconfiança e mostrava o carisma que hoje é por todos reconhecido.

Não me ficou daqueles encontros e conversas a impressão de que o Brasil ocupasse um espaço maior em sua reflexão e prioridades. Isto viria depois da Rio-92 e, sobretudo, mais tarde, quando somos sucessores de África do Sul na organização da Copa do Mundo de Futebol.



Centro Brasileiro de Relações Internacionais