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Especialistas em consenso: Brasil precisa construir sua visão de inserção global

08/12/2015

Cdn Comunicação

O debate sobre uma visão nacional para a inserção global brasileira e as estratégias para alcançar esse objetivo foram pontos abordados no seminário “A Nova Arquitetura do Comércio Internacional: onde está o Brasil?”, promovido pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), que reuniu especialistas brasileiros na área de comércio exterior, nesta segunda-feira (7/12).

No centro das discussões, a formação de grandes blocos que tem modificado a arquitetura do comércio global. Entre eles, a Aliança do Pacífico (TPP, na sigla em inglês), que abrange Estados Unidos, Canadá, Coreia do Sul, Austrália e países da América do Sul, cobre 40% do PIB global e cerca de um quarto do comércio internacional. Já o TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), com Estados Unidos e União Europeia, envolve 50% do PIB global e cerca de 40% do comércio internacional.

O novo Presidente do CEBRI e mediador do evento, Rafael Benke, ressaltou a importância de ampliar as discussões sobre a visão do Brasil neste cenário de movimentos relevantes que têm mudado o comércio internacional. “É o momento de começarmos a traçar quais são as linhas possíveis que o Brasil pode adotar para garantir maior inserção global nos próximos 10 anos e o que temos que fazer hoje”, afirmou Benke.

O Embaixador Luiz Felipe Lampreia, Vice-Presidente Emérito do Conselho Curador do CEBRI, abriu o debate destacando que a Aliança do Pacífico representa um novo benchmarking na área de comércio internacional. “O TPP também é um acordo de tarifas bastante amplo, porque abarca mais de 40 mil posições, que interessam aos Estados Unidos especificamente. Mas também faz o que a OMC (Organização Mundial do Comércio) não foi capaz. Os negociadores tentaram fechar acordos em relação a comércio e meio ambiente, comércio e financiamento, inclusive serviços e investimento, mas não conseguiram ir muito longe. O TPP vai além porque cria outras regras muito importantes que não se cogitavam até então em acordos internacionais”, ressaltou.

Em seguida, o Embaixador Carlos Márcio Cozendey, Subsecretário-Geral de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério de Relações Exteriores, traçou o cenário da dinâmica da arquitetura do comércio exterior e a posição do Brasil neste contexto. Ele explicou que o perfil é bastante diversificado geograficamente e em termos do conteúdo das exportações. “Por isso, a aposta lógica do Brasil de colocar todas as fichas na OMC e em acordos multilaterais. Esta negociação se confronta hoje com uma realidade diferente da arquitetura de comércio internacional”, acrescentou Cozendey.

O Diplomata foi enfático ao apontar a necessidade de se aprofundar no debate interno: “Temos um cenário internacional em mutação, indefinido, e uma realidade interna muito complexa em termos de negociação. Precisamos iniciar uma discussão neste sentido. A questão é: estamos preparados para este tipo de acordo? A indústria brasileira está preparada para abrir a estrutura tarifária que tem hoje? É preciso começar a discussão de dentro para fora. Termos que iniciar essas negociações olhando os nossos interesses, caso a caso”, defendeu.

Talk-show amplia debate

As discussões prosseguiram em formato de talk-show lideradas pelo Presidente do CEBRI, Rafael Benke, com a participação do Embaixador José Alfredo Graça Lima, Subsecretário-Geral de Política II, encarregado das relações bilaterais do Brasil com a Ásia e Oceania;Daniel Godinho, Secretário do Comércio Exterior no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior; Diego Bonomo, Gerente Executivo de comércio exterior da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e Mario Marconini, Diretor de Negociações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e ex-Secretário de comércio exterior do Brasil.

O Embaixador Graça Lima lembrou que o cenário atual no Brasil não é diferente do verificado há 20 anos. Para ele, os novos acordos, mais avançados em termos de normas e regulação, não excluem o acesso do Brasil. “O Brasil, através do Mercosul, pelo fato de sua estrutura econômica responder mais ao regionalismo do que à integração global, se colocou nesta posição”, afirmou o Diplomata.

Já para Diego Bonomo, é uma questão institucional: “A política comercial não possui a envergadura necessária.” De acordo com Bonomo, não há uma alternativa no Brasil de formação de megabloco do Brics. “O desejo da classe empresarial é de mais integração, justamente neste cinturão que está sendo formado, com Estados Unidos e União Européia, e aprofundar com América do Sul e América Latina”.

Mario Marconini ressaltou que o Brasil tem tido muita dificuldade em abrir a economia. “Há uma espécie de esquizofrenia negocial que não define o que quer por razões desconhecidas. E quando o país vai a campo acaba se atrasando, porque os outros já estão definidos. Os atores de hoje são países que já tinham a sua economia aberta e que hoje estão dando um salto continental e regulatório”, disse.

Em relação à política pública brasileira, o Secretário Daniel Godinho reconheceu que a participação do Brasil no comércio internacional é muito aquém ao potencial do país. “O Brasil sempre cresceu olhando para dentro e o comércio exterior nunca esteve no DNA no Brasil. E o país sempre cresceu e se desenvolveu utilizando essa estratégia”. E lançou o alerta: “Se isso funcionou no passado à luz da realidade da fragmentação da produção, hoje a competitividade de um país é função direta da sua participação nas cadeias globais de valor”.

Durante o evento, foram transmitidos depoimentos das seguintes personalidades brasileiras de destaque no cenário internacional: Paulo Sotero, Diretor do Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington; Tatiana Prazeres, ex-Secretária de comércio exterior do Brasil e Assessora Sênior de Roberto Azevedo, Diretor-Geral da OMC; Victor do Prado, Diretor da OMC; Aluisio de Lima Campos, professor da Washington College of Law; e Carlos Primo Braga, professor da International Political Economy, International Institute for Management Development e Evian Group, na Suíça.

 

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Centro Brasileiro de Relações Internacionais