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Embaixador Botafogo fala sobre a visita de Dilma a Cuba

31/01/2012

O embaixador e vice-presidente nato do Centro Brasilerio de Relações Internacionais (CEBRI), José Botafogo Gonçalves, afirma que a viagem da presidente Dilma Rousseff a Cuba tem como principal objetivo aumentar a presença de empresas e investimentos brasileiros na nova economia do país. Segundo o embaixador, Dilma deve fazer alguma observação sobre os direitos humanos a autoridades cubanas, mas sem comprometer a relação com os dirigentes do país.


O GLOBO: O que podemos esperar da visita de Dilma a Cuba?
JOSÉ BOTAFOGO GONÇALVES: Eu acho que, sobretudo, avanços no campo da cooperação, na área econômica e de investimentos futuros por parte de empresas brasileiros. Para mim, o foco principal dessa viagem, para o Brasil, será preparar o país para um aumento de sua presença na economia cubana, que vem se abrindo, com as reformas apresentadas por Raúl Castro. Mas essa tendência brasileira já existe há algum tempo. O governo de Fernando Henrique Cardoso já havia começado a ampliar o espaço da presença brasileira no país, aumentando a cooperação técnica, o investimento, e a presença da Petrobrás. A viagem da presidente Dilma, então, é mais um passo para ampliar a influência brasileira no futuro da economia cubana. Mas é também uma mera continuidade do que foi feito por outros governos.

O GLOBO: A visita de Dilma ao país coincide com o anúncio de Raúl Castro sobre uma limitação nos mandatos dos próximos líderes. Além disso, Cuba passa por um momento de mudanças econômicas. O senhor acredita que o Brasil pode (e quer) desempenhar um papel nessas duas questões?
BOTAFOGO GONÇALVES: Essas mudanças na burocracia, de limitar prazos, eu acho tudo isso superficial, uma maneira de tentar fazer reformas sem realemente fazê-las. Com isso, você pode desmantelar alguns métodos antiquados de gestão pública, mas a mudança é muito marginal. As grandes mudanças não virão desses anúncios superficiais, elas serão provocadas pelas necessidades - de produção industrial maior, de mudanças na questão de propriedade - trazidas pela abertura da economia. Cuba vai num caminho chinês, mas adaptado aos critérios cubanos.

O GLOBO: Comparada à Presidência de Lula, como descreveria a relação de Dilma com os irmãos Castro?
BOTAFOGO GONÇALVES: Eu acho que existe uma diferença de estilo entre os dois, marcante, e não só em relação a Cuba, mas no campo da política externa, e também na política interna. Dilma não tem nem o prestigio nem o carisma de Lula. Por isso, ela adotou um postura muito mais moderada, mais pragmática. Ela tem uma história de sofrimento no passado, que a leva a dar mais atenção aos direitos humanos, mas nao tanto que comprometa a relação dela com as autoridades cubanas. Não vai der nenhuma guinada nessa campo. O chanceler Antonio Patriota disse, recentemente, que os direitos humanos em Cuba não é uma questão prioritária. O visto para a blogueira Yoani Sánchez mostra que houve conversas com autoridades cubanas. À medida que o Brasil concedeu um visto a ela, ficou claro que houve um acordo. É um jogo de cartas marcadas.

O GLOBO: Muitos veem nessa viagem um teste sobre a política de direitos humanos de Dilma. O senhor concorda? O Brasil poderia, por exemplo, pedir maior facilidades para que os cidadãos cubanos viajem?
BOTAFOGO GONÇALVES: Certamente o Brasil vai manifestar, de forma privada, alguma ideia a esse respeito. Mas essa abertura vai ocorrer invariavelmente, são mudanças que estão sendo gestadas, isso vai ocorrer. Uma palavra da presidente Dilma pode ser útil, e acelerar um pouco a abertura. Mas ela não vai fazer nenhuma sugestão que entre em confronto com as autoridades cubanas. O que ela pode fazer é dar um empurrão na direção que já está sendo indicada pelo próprio governo da ilha.

Leia a matéria no site do jornal O Globo.



Centro Brasileiro de Relações Internacionais