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Brasil está à beira de uma “revolução do internacionalismo”

21/11/2013

Adriana de Queiroz

No Brasil, as questões internacionais se confinavam no domínio da diplomacia. Chefes de Estado – sem falar na sociedade como um todo – raramente interferiam ou tinham muito interesse nessas questões. No entanto, nas últimas duas décadas, isto mudou: a sociedade brasileira, políticos e uma ampla gama de instituições domésticas moveram-se na direção do internacionalismo e das relações internacionais. Isto começou durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso (de 1995 até 2003) e se intensificou durante o segundo mandato de seu sucessor, Presidente Lula da Silva (2003-2011). Liderado pelo presidente, este período foi marcado por um número maior de pessoas se envolvendo em questões internacionais e relações diplomáticas.

Após o segundo choque do petróleo em 1973, e o fim de duas décadas de ditadura em 1985, o Brasil lutou por quase 20 anos com uma inflação persistentemente alta. Sucessivos governos prestaram pouca atenção à política externa do Brasil, concentrando-se em problemas domésticos. Graças à estabilização da economia, à introdução de políticas sociais bem-sucedidas e à crescente importância do Brasil como um fornecedor global de alimentos, o país tem sido capaz de voltar seu foco para o exterior. Além disso, diversas companhias brasileiras se tornaram muito bem-sucedidas na arena global. Todos estes elementos criaram uma “tempestade perfeita” de condições que se tornaram o plano de fundo ideal para um eloquente Presidente Lula chamar a atenção do mundo para a crescente importância global de seu país.

Sem discutir os méritos e os deméritos das ações de Lula, o fato é que elas foram muito rapidamente compreendidas, e traduzidas em um papel internacional maior para o Brasil. O país liderou iniciativas de cooperação para o desenvolvimento na América Latina e na África, sediou encontros internacionais, teve maior participação em fóruns internacionais, e apareceu mais regularmente na imprensa estrangeira.

Até certo ponto, a retórica de Lula também ajudou o povo brasileiro a acreditar que seus valores culturais, experiências de vida e resiliência eram algo não apenas do qual se orgulhar, mas também de utilidade para países e povos que passavam por problemas semelhantes e encaravam as mesmas realidades. Embora seja verdade que os brasileiros começaram a se envolver mais plenamente em compartilhar informações e expertise com outros países, deve-se notar que muito deste envolvimento foi em resposta às solicitações dos países que o Presidente Lula visitou, em vez de comportamento proativo.

Desde o fim da presidência de Lula em 2011, temos visto a sociedade civil, a academia e as instituições governamentais continuarem ativamente a estabelecer novos canais de cooperação internacional. Além disso, o fato de que as tecnologias de comunicação têm estado cada vez mais acessíveis aos indivíduos de baixa renda significa que brasileiros comuns têm tido acesso a muito mais informação global do que antes.

Como resultado, as pessoas estão prestando mais atenção em questões internacionais, assim como em questões domésticas, e estão muito melhor informadas do que há uma década. Nos últimos cinco anos, de acordo com um relatório da Anatel, o acesso da população à internet dobrou, atingindo um terço de todos os lares no Brasil, e os jovens em particular. No início deste mesmo ano, o Wall Street Journal chamou o Brasil de “capital da mídia social do universo”, com o país mostrando surpreendentes taxas de crescimento não apenas em termos de usuários, como também em termos de tempo gasto usando a mídia social, a qual tem diminuído as divisões de classe no Brasil.

Os brasileiros ainda estão aprendendo a respeito de democracia, seus direitos e o sistema político, mas quando as populações se tornam mais conectadas e mais conscientes da realidade de outros, eles começam a perceber que as soluções para muitos problemas domésticos apenas serão sustentáveis se tratados no âmbito de um quadro global – não necessariamente formal – e/ou de forma colaborativa. A solidariedade, portanto, desempenha um papel importante; como diz o ditado, “melhores amigos são pessoas que fazem de seus problemas os problemas deles, para que você não tenha de passar por eles sozinho”. A grande revolução no internacionalismo ainda está por vir.

No entanto, ainda pode ser vista resistência ao internacionalismo. No Brasil, como em qualquer outro país, há facções cujos pontos de vista individualistas e nacionalistas são prejudiciais ao internacionalismo e à justiça social.

No governo brasileiro, e em particular no Ministério das Relações Exteriores, ainda há relutância em adaptar-se à democracia e ao pluralismo. A política externa brasileira deve ser modernizada se for trabalhar em prol do internacionalismo de hoje. Não deve apenas se envolver com outros governos e com o setor privado, como também deve apoiar e incorporar diálogos com a sociedade civil.

Educar as gerações mais novas para que realmente adotem uma perspectiva internacionalista é crucial: nós estamos, afinal, encarando um crescente número de problemas globais e sistêmicos que irão determinar seu futuro, inclusive as mudanças climáticas, recursos naturais limitados e crimes transnacionais. A promoção de programas de intercâmbio educacional também pode ter um papel importante na melhoria do entendimento mútuo e na construção de pontes. O aumento da conscientização a respeito de outras culturas e a promoção de conexões interpessoais são meios de buscar o internacionalismo. Nós vivemos em uma era onde o Hard Power não apenas perdeu sua eficácia – como se ele tivesse alguma, para começar – como também tem cada vez mais perdido o apoio de pessoas ao redor do mundo. Há espaço para o internacionalismo tornar-se ainda mais eficaz, uma vez que geremos conexões que sejam transformadoras.

Adriana de Queiroz é a Coordenadora Executiva no Centro Brasileiro de Relações Internacionais – CEBRI, onde tem sido responsável por projetos a respeito de questões como o comércio internacional, desenvolvimento e meio ambiente.



Centro Brasileiro de Relações Internacionais